NO TEMPO DOS JAGUARES

CAPA FACE

NO TEMPO DOS JAGUARES

Francélia Pereira

— Ei! Essa é minha… — O jaguar mais temido de seu povo diz, enquanto se aproxima. Os outros jaguares se afastam da caça, já sem vida, que iriam devorar.

— Ele abusa porque é o preferido da avó.

— Sim; se não fosse isso já teríamos dado um jeito nele.

Os jaguares reclamam, enquanto observam o irmão devorar a caça do dia.

Desde que Ñamandu começou seus desdobramentos, vários seres foram criados. Os jaguares foram os primeiros habitantes do mundo.

Distante da terra dos jaguares, uma bela moça passava o tempo caçando passarinhos. Um dia, sua armadilha prendeu uma coruja. A moça se encantou com a ave, que logo se tornou seu animal de estimação.

— Há algo divino em seu olhar, linda coruja! — A ave parecia sorrir para sua nova dona. — Vamos para casa, preciso repousar um pouco.

A moça vivia sozinha, em uma oca construída por ela. Chegando em casa, ela preparou algo para comer e lembrou-se de alimentar também sua nova companhia.

— O que você come, meu bichinho?

A coruja bate as asas.

— Hum… Vejamos o que encontro para você.

A moça sai da oca e pega uns grilos.

— Ei corujinha, trouxe sua comida…

A coruja não quis comer os grilos. A moça tentou outra coisa.

— Comida de coruja… O que será que essa coruja come?

A moça andava pela mata perto da oca. De repente, duas borboletas passam voando. A moça as captura. Dentro da oca, a coruja também não come as borboletas. A jovem sai da oca.

— Bem, dia de sorte pra vocês, minhas flores aladas! — A moça diz, enquanto liberta as borboletas, que voam livres sob o céu.

Enquanto observa as borboletas indo embora, a bela jovem pensa um pouco, então entra novamente na oca. A coruja estava perto de umas espigas de milho.

— Então é isso? Vou fazer umas bolachas pra você.

A moça faz umas bolachas de milho e a coruja se alimenta até se fartar. Na hora do cochilo, a jovem deita na rede e a coruja fica sob um suporte, próximo à cabeça de sua dona.

— Vamos dormir um pouco, meu bichinho…

A moça dorme e a coruja acaricia seus cabelos com uma de suas asas.

Após alguns dias, os carinhos da coruja causam transformações no corpo da jovem.

— Olhe! Minha barriga está crescendo… O que será isso?

A coruja então sofre uma metamorfose e, diante da moça, surge o pai primeiro-último, o deus Ñanderuvusu.

— Olá bela jovem! Sua barriga cresce porque carrega meu filho.

A moça se assusta.

— Não tenha medo. Agora você é minha esposa; venha comigo e vamos viver no céu.

— Sua verdadeira esposa, a verdadeira mãe de seus filhos, vive no céu. Ela é perversa, o que faria de mim se eu fosse viver com vocês? Não posso ir…

— Não há porque se preocupar; sou o pai primeiro-último, minha esposa não lhe fará mal.

— Mesmo se eu quisesse ir não poderia. Você não deveria ter plantado outra semente em meu ventre…

— Outra semente?

— Sim. Antes que seu filho começasse a crescer em mim já havia a semente de Ñanderu Mbaekuaa. Agora seu filho faz companhia ao filho de Mbaekuaa.

Ao receber a notícia, Ñanderuvusu se irrita; então sai da oca e vai preparar uma plantação enquanto tenta se acalmar. Ele anda pela terra preparada para a plantação, mas não semeia. Então senta, acende seu cachimbo e fica pensativo enquanto observa a fumaça subindo. Após um tempo, ele se levanta e volta para a oca; as plantas começam a germinar à medida que Ñanderuvusu vai se afastando.

— E então, mudou de ideia? — Ñanderuvusu pergunta. A moça cruza os braços e balança a cabeça, negativamente.

Percebendo que a jovem não mudaria de ideia, Ñanderuvusu respeita sua vontade e não insiste mais.

— Tudo bem, você pode ficar. Mas, mesmo que demore, leve meus filhos para mim.

O deus segue seu caminho, mas se lembra de deixar pistas para que os gêmeos pudessem segui-lo quando quisessem e assim chegarem até o céu. Ele planta um rabo de arara na entrada do caminho que seguiu. Também cuida de fechar o caminho de Ñanderu Mbaekuaa com outro rabo de arara, para que os gêmeos não o confundissem com o seu.

A moça olha para sua barriga e a acaricia com ternura.

— Meus filhos! — A jovem diz, sorrindo.

O tempo passa. A moça se arrepende de não ter ido para o céu e sai à procura do caminho que a leva até Ñanderuvusu. Já com a barriga grande, ela sai em sua jornada.

Quando passa pela plantação de Ñanderuvusu, os filhos, ainda na barriga da mãe, sentem o cheiro de flores de maracujá. O filho mais velho, filho de Ñanderuvusu, pede à mãe que as colha. A mãe obedece. Após colher as flores ela continua caminhando até encontrar o rabo de arara na entrada do caminho do pai-primeiro.

A jovem mãe fica confusa, não sabe para onde ir, então consulta seus filhos que prontamente lhe indicam o caminho certo. Ela caminha um tempo e acaba encontrando uma plantação abandonada; nela também havia flores de maracujá, e o filho mais velho as pede novamente, mas dessa vez uma vespa pica o dedo da moça e ela se irrita com os filhos.

— Não me peçam mais nada até que nasçam.

Os filhos ficam quietos dentro da barriga, mas resolvem não conversar mais com a mãe.

Após caminhar bastante, a jovem encontra outro rabo de arara, o rabo que Ñanderuvusu usou para fechar o caminho de Mbaekuaa; ele sabia que seu filho compreenderia o sinal. A moça novamente fica confusa quanto ao rumo que deveria tomar e pergunta aos filhos qual seria o caminho certo. Ela pergunta uma, duas, três vezes; mas os filhos não respondem. Ela se cansa, então, e decide seguir o caminho mais bonito; era o caminho de Mbaekuaa.

Já exausta, a moça vê fumaça ao longe.

— Enfim uma aldeia. Talvez me deem abrigo e comida para que eu possa continuar minha jornada.

Ao se aproximar da aldeia, ela vê a velha jaguar, a avó.

— Minha filha, o que você faz aqui? Tenho muitos netos e você não pode confiar em nenhum deles. Vá logo embora.

— Não posso, estou grávida e muito cansada. Preciso repousar um pouco e me alimentar.

— Descanse um pouco então, mas depois vá. Vou escondê-la dentro daquela panela grande de barro. Talvez meus netos não percebam os seus rastros.

A moça agradece e vai dormir na panela de barro.

Os jaguares estão correndo na mata. Mais um dia de caça para as criaturas das trevas.

— Ei, irmão caçula! Vamos pegar aquele grupo de quatis.

— Sim, irmão!

Os dois jaguares seguem em direção aos quatis; mas antes que possam capturá-los, o jaguar que todos temiam salta sobre eles e devora os animais.

Os irmãos observam o irmão mais velho se alimentar, seus estômagos trovejam.

Após a caçada frustrada todos voltam para casa. O mais velho é o primeiro a chegar. A avó ainda fazia fumaça.

— Vejam só! O que está preparando pra nós, avó?

A avó tenta disfarçar.

— Vocês é que foram caçar, meu neto! Como posso estar preparando alguma coisa sendo que fiquei aqui, esperando por vocês?

O felino cheira o ar como se estivesse procurando alguma coisa.

— Sinto cheiro de carne.

— Não há carne aqui. Estou queimando os ossos da nossa última refeição.

O irmão mais velho dos jaguares vai em direção à panela de pedra. Quando destampa, vê a jovem esposa de Ñanderuvusu.

Os outros jaguares chegam famintos.

— Vejam, há comida na panela.

Um grupo vai até a panela. A moça não desperta de seu sono profundo. A avó fecha os olhos e aceita o destino.

— Jovem tola. Eu falei para ir embora — a avó pensa alto.

Após devorarem a moça, os jaguares trazem os gêmeos para que a avó pudesse comê-los.

— Veja avó! Trouxemos pra você.

A avó prepara o caldeirão para cozinhar as crianças; mas quando as joga na água fervente, ela esfria. Todos se espantam.

— Jogue as crianças na fogueira, avó — o caçula diz.

A avó joga as crianças na fogueira, mas o fogo se apaga.

— Essas crianças são diferentes. Vamos mantê-las como animais domésticos. — O irmão mais velho diz. Todos concordam; e os gêmeos crescem junto dos jaguares, como se fossem a sua verdadeira família.

O mais velho dos gêmeos é P’ai, filho de Ñanderuvusu; o caçula é Guyrapepo, filho de Ñanderu Mbaekuaa.

Ainda menino, P’ai fez um arco e pediu à avó para pôr nele uma corda. Então começou a caçar borboletas e as levava para a velha. Quando cresceu, passou a caçar passarinhos.

Um dia foi caçar pássaros na floresta azul, junto do irmão caçula. Guyrapepo andava pela floresta, então viu um papagaio; tentou acertá-lo com a flecha, mas errou. O papagaio começou a reclamar.

— Veja P’ai! O pássaro fala!

— Atire novamente, Guyrapepo.

Guyrapepo atirou e o pássaro se irritou novamente.

— Veja quem vem atrapalhar meu sossego… Os irmãos que alimentam os assassinos de sua mãe. — O pássaro diz.

— Do que está falando, ave estranha?

— Os jaguares que vocês alimentam… Foram eles que devoraram a mãe de vocês. A velha que chamam de avó teria comido vocês se não fossem filhos de deuses. — A ave diz e sai voando.

P’ai se apoia em seu arco e começa a chorar. Depois decide libertar os pássaros que ele e o irmão haviam capturado.

Os irmãos voltam para a aldeia dos jaguares, sem a caça.

— E então, P’ai. O que faremos agora? — perguntou Guyrapepo.

— Vamos nos vingar dos assassinos de nossa mãe.

— Mas os jaguares são os seres originários! Como faremos isso?

— Não importa quem sejam. Eles são traiçoeiros, são criaturas das trevas. Faremos uma armadilha e assim nos vingaremos.

Perto da aldeia dos jaguares, com a ajuda de Guyrapepo, P’ai faz uma grande armadilha encantada.

Um dos irmãos mais velhos se aproxima.

— O que faz aí, P’ai?

— É uma armadilha especial. Nela prendo qualquer caça.

O jaguar solta uma gargalhada.

— Eu jamais morreria aí. Essa armadilha é uma piada.

— Pois bem; então entre…

— Vou lhe mostrar; “irmão”. — O jaguar diz com ironia enquanto entra na armadilha. — Veja… Estou dentro da sua “fantástica” armadilha e… — O jaguar não pôde completar a frase. Uma luz forte fulminou seu corpo.

— Funcionou!

— É claro que funcionou; somos filhos de um deus — P’ai diz ao irmão.

Guyrapepo fica extasiado diante do ocorrido e fica feliz ao perceber o quanto ele e o irmão são especiais. Assim, com a armadilha encantada, P’ai matou todos os machos jaguares.

— Não sobrou um macho sequer…

— Sim Guyrapepo. Agora precisamos exterminar as fêmeas.

— Elas não entrarão na armadilha.

— Não.

— O que faremos então?

P’ai vai até a mata. Pega um fruto no chão, diz umas palavras, então o esmaga com as duas mãos. Do fruto fica uma semente.

— Veja!

— É só uma semente…

— Não me subestime, meu irmão caçula.

P’ai vai até uma clareira próxima, que fica perto de um rio profundo. Nela ele planta a semente, que logo germina se tornando uma bela árvore carregada de frutos suculentos.

— Pegue alguns frutos, Guyrapepo. Vamos levá-los para nossa “avó”.

Os dois atravessaram o rio. P’ai construiu uma ponte sobre ele e o encheu de serpentes e outros animais que devoram carne. Depois seguiram para o local onde estavam as fêmeas. A avó estava com elas.

— O que trazem, meus netos?

— Somente uns frutos que encontramos na mata. Quer provar?

— Sim. — A avó pega o fruto da mão de P’ai. — Hum! É delicioso! Me dê mais um.

Ao verem o entusiasmo da avó devorando o fruto, as outras fêmeas ficam curiosas e provam também. Os frutos se acabam e elas pedem mais.

— Vamos até a mata, lá vocês poderão se fartar colhendo os frutos direto da árvore — P’ai fala com as fêmeas.

Todas concordam e seguem os dois irmãos até a arvore dos frutos dos seres originários. Quando se aproximam da ponte, P’ai diz a Guyrapepo que fique por último e que corte as cordas da ponte ao seu sinal. Guyrapepo concorda.

— Vou na frente para ver se a ponte está segura. Esperem aqui.

As fêmeas esperam.

Do outro lado, P’ai dá o sinal para que as fêmeas atravessem; mas antes que a última fêmea esteja totalmente na ponte, P’ai dá o sinal e Guyrapepo corta as cordas. Assim, todas as fêmeas caem no rio e são devoradas pelos animais que P’ai criou; exceto a última fêmea da fila, que estava grávida. Ela consegue alcançar o barranco e escapa.

Guyrapepo faz uma fogueira, pega algumas sementes e as joga no fogo. Quando as sementes estalam, ele dá três risadas; então aparece do outro lado do rio.

— Irmão! Por que deu o sinal cedo demais?

— Era o destino. A fêmea que escapou dará a luz a um jaguar macho e eles povoarão a Terra novamente.

— Então nossa vingança foi um fracasso?

— Sim. Não há como nos vingarmos dos seres originais. Você estava certo.

— O que faremos então?

— Vamos morar com nosso pai no céu. Os jaguares são os pytüjary, os senhores das trevas. Não podemos mais viver aqui com eles. Nossa verdadeira morada é no céu. Aqui é o lugar deles.

— E como iremos para o céu?

— Nossos pais, Ñanderuvusu e Ñanderu Mbaekuaa, podem nos ajudar nisso. Chame por seu pai, chamarei pelo meu.

— Como nossos pais poderão nos ouvir?

— Através da dança poderemos chamar a atenção deles, e através de cantos podemos pedir ajuda.

Guyrapepo concorda e observa a dança do irmão. Ele faz o mesmo. Então os dois se entregam totalmente à dança e os cantos surgem naturalmente.

No céu, os deuses observam seus filhos.

— Veja, eles estão prontos para morar no céu.

— Sim, Ñanderuvusu, chegou a hora dos gêmeos dançarem no céu. Nossos filhos levarão luz para a Terra. Aqui no céu, nos farão companhia e podem dançar pela eternidade desse grande ciclo.

— Isso mesmo, Mbaekuaa. E para orientar os habitantes da Terra criarei Tupã; ele também nos fará companhia e a nossos filhos, para que eles nunca se percam.

Enquanto cantam e dançam, P’ai e Guyrapepo são levados para o céu, e lá continuam sua dança eterna.

Assim surgiram o Sol e a Lua.

CAPA NO TEMPO DOS J

*OBS: ESTA É UMA OBRA DE FICÇÃO. PARA CONHECER A CULTURA E AS HISTÓRIAS ORIGINAIS DOS POVOS TRADICIONAIS DO BRASIL, LEIA AS OBRAS DOS AUTORES DA LITERATURA INDÍGENA BRASILEIRA.

Este conto é uma adaptação das versões do mito dos gêmeos, encontradas na obra Ayvu Rapyta, de León Cadogan.

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