ENTREVISTA: Cristino Wapichana.

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Kaká Werá Jekupé e Cristino Wapichana.

Natural de Boa Vista, Cristino Wapichana vem desenvolvendo, junto com outros autores da Literatura Indígena Brasileira, trabalhos muito importantes, no sentido de preservar a Cultura Ancestral e divulgá-la à toda a sociedade, no Brasil e no mundo.

Os autores da Literatura Indígena Brasileira têm trabalhado duro para preservar a Sabedoria Ancestral da nossa terra e torná-la acessível à sociedade não tradicional; e esses trabalhos começam a ser reconhecidos.

Em uma entrevista, concedida gentilmente, Cristino Wapichana nos conta um pouco mais sobre seu contato com a Arte e sobre a sua jornada na Literatura Indígena; ele fala também sobre como foi a experiência de sua ida à Europa e a participação na 35ª edição do Salão do Livro de Paris.

PINDORAMA – Você é um artista que atua em diversas áreas, dentre elas a Música e a Literatura. Fale um pouco sobre como  você começou a se expressar através da Arte e o que a Arte representa para você.

CRISTINO – A arte sempre fez parte de minha vida de alguma forma. Lembro-me de mãe contando historias tradicionais Wapichana, enquanto seus dedos ágeis abriam caminho entre os cabelos caçando piolhos.  Jamais vou esquecer os sopros refrescantes que eu sentia na cabeça, para aliviar o calor escaldante do sol da linha do Equador. Ela também cantava e ensinava algumas músicas cristãs e ate aprendíamos, pois mamãe possuía uma voz angelical afinadíssima.

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Cristino Wapichana e Daniel Munduruku no Salão do Livro de Paris.

Em alguns finais de tarde, era o violão velho do meu pai que tentava imitar músicas antigas de Nelson Gonçalves e Luiz Gonzaga.  Sua voz não ajudava e seus dedos grossos e enrijecidos não acompanhavam o ritmo das músicas e às vezes ele repetia insistentemente a mesma frase musical, até harmonizar voz e instrumento, e reviver tempos idos de sua juventude.

Foi assim que nasceu em mim a arte na mais pura essência.

O violão foi o meu primeiro instrumento que tive contato ainda no mato. Meu pai até tentou me ensinar, mas não consegui aprender. Depois que fui para a cidade de Boa Vista-RR, comecei a aprender violão vendo outros tocarem.  Fui estudar em uma escola de música e então a música me abriu para outras artes.  A literatura me apresentou o mundo.

Aprendi que a Arte move o mundo e só vivem bem os artistas. rsrsrs.

PINDORAMA – Através do projeto “Leve um escritor indígena à sua Escola”; você tem desenvolvido trabalhos lindos com as crianças, contando histórias ancestrais e ajudando os pequenos a descobrirem uma realidade dos povos indígenas tradicionais bem diferente daquela que costumava ser contada pela Escola. Qual a importância desse trabalho para você?

11072811_963666566990652_1266367827_nCRISTINO – É uma tentativa de aproximar e informar a sociedade brasileira, sobre a riqueza das culturas indígenas para o Brasil. Mostrar por meio da literatura, cinema, música, artefatos tradicionais, histórias, canto e danças, palestras, bate-papo, o quanto estes povos são importantes para a formação do Brasil. Que estas culturas diferentes devem ser protegidas, respeitadas e que acima de tudo, como seres humanos, têm o direito à vida; e esta vida depende da preservação do ambiente. Poder falar com as pessoas sobre o meu Povo Wapichana e o que os mais de 300 povos indígenas têm a oferecer para melhorar o mundo, é uma missão sublime para mim.

PINDORAMA – Como surgiu a ideia de registrar, através da escrita, as histórias ancestrais do povo Wapichana?

CRISTINO – Desenvolvi um projeto de revitalização cultural em três comunidades indígenas Wapichana entre 2004 e 2007, que foi onde aprendi mais sobre a cultura do meu povo.  Consistia em reunir crianças, jovens e um ancião para contar histórias e ensinar cantos. Os jovens me ajudavam a repassar para as crianças e assim nos fortalecia como povo. Criamos um coral infantil que apresentava as músicas que aprendíamos e ensinávamos e tudo com o intuito de preservação e continuidade. O registro escrito significa que gerações futuras podem ler parte de sua cultura.  É também afirmação e auto-estima.

PINDORAMA – Seu último livro, Sapatos Trocados, conta a história de “como o tatu ganhou suas grandes garras”. Quando leio essas histórias, produzidas na nossa terra, automaticamente lembro de histórias como as Fábulas de Esopo, da Grécia Antiga; mas as histórias dos povos tradicionais do Brasil não têm o mesmo peso que as obras estrangeiras, de culturas “mortas”, ainda têm em nossa sociedade. Na sua opinião, por que isso acontece, ou seja, porque ainda não aprendemos a dar valor à nossa cultura, à Sabedoria Ancestral da nossa terra?

1743521_613804122032685_2113417203_nCRISTINO – Acho que é um misto de coisas. Desde preconceito ao racismo, da falta de conhecimento e do que tem sido ensinado.  É difícil você dá crédito para povos menores que não têm uma contribuição na cadeia produtiva capitalista.  Os povos de oralidade não tinham como registrar seus feitos e descobertas. Suas façanhas foram se misturando ao tempo que se foi.  O mundo é muito Europeu, branco e não consegue ver e nem reconhecer as outras cores, as outras forças; e conhecimentos tecnológicos, filosóficos e científicos aliados ao capitalismo, não lhes permitem aceitar os povos tradicionais dentro de sua ótica.  Embora nossas histórias sejam fantásticas e ricas de saberes e valores, não passam de lendas para eles. Chegam a negar suas próprias raízes, mas determinam dias com feriado nacional para lembrar das minorias como folclore, que é pior.

PINDORAMA – Além da Literatura, você participa, ou já participou, de algum projeto que envolva a temática Indígena? Em caso afirmativo, fale um pouco sobre ele(s)?

CRISTINO – Organizo junto com Daniel Munduruku o Encontro de Escritores e Artistas indígenas, que neste ano completa sua 12ª edição, com o apoio do Instituto C&A, intituto Uka e a FNLIJ.  Este encontro acontece no contexto de Salão FNLIJ do Livro Infantil e Juvenil, na cidade do Rio de Janeiro. Temos um dia de seminário onde tratamos de temas importantes sobre os povos indígenas, especialmente na área da educação. É também um encontro entre os autores e artistas indígenas com editores, publico leitor e um encontro para se discutir o movimento literário de autores indígenas.

Com a parceria da FNLIJ, tem seus concursos, dois com a temática indígena: Concurso Tamoios – para autores indígenas, e o Curumim – para professores que trabalham livros de autores indígenas em sala de aula.

Este ano o tema do nosso encontro será: Entre Caminhos: Literatura Indígena e Letramento.

PINDORAMA – Aconteceu recentemente a 35ª edição do Salão do Livro de Paris, e você estava na lista dos escritores brasileiros participantes do evento. Fale um pouco sobre como foi essa experiência. O que esse evento trouxe de positivo para os autores da Literatura Indígena Brasileira?

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Cristino Wapichana e o ministro da Cultura Juca Ferreira na 35ª edição do Salão do Livro de Paris.

CRISTINO – Na verdade, fui com o apoio do Instituto C&A e do instituto Uka, na companhia de Daniel Munduruku.   Foi uma experiência magnífica conhecer o Salão do livro de Paris e a cidade, mas tínhamos outros objetivos.  Participamos em outros eventos como palestrantes nas tradicionais universidades; como o King College em Londres, Universidade de Sorbonne em Paris, Universidade Grenoble, nos Alpes franceses e de atividades culturais indígenas no Espaço Krajcberg e Museu Quail Branly de Paris. Tratamos de diversos temas sobre a diversidade da cultura indígena. Entre eles a literatura e cinema indígena, questões polêmicas relacionadas a construções das hidrelétricas, educação indígena diferenciada e violação dos direitos a vida dos povos e das culturas indígenas no Brasil.

Foi importante estes encontros especialmente por difundir a cultura indígena para brasileiros que moram naquele País.  Acredito que retornaremos para outras atividades na Europa.

PINDORAMA – Caso queira, deixe algumas considerações para os leitores.

CRISTINO – Podemos muito quando de fato queremos; e as mudanças só acontecem a partir da gente e é neste e com este pensamento e ideal, que faço da arte meu grito e meu abrigo.

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Cristino Wapichana é natural de Boa Vista Roraima, Músico e Compositor premiado, cineasta, escritor e produtor do Encontro de Escritores e Artistas Indígenas. Vencedor do 4° concurso Tamoios de literatura pela FNLIJ – Fundação Nacional do Livro Infantil e juvenil 2007 com o Texto “A Onça e o Fogo”. Menção Honrosa 2014 do concurso Tamoio. Indicado ao Prêmio da Ordem do Mérito Cultural da Presidência da República 2008, pelos trabalhos relevantes em prol da cultura indígena brasileira.

Contador de histórias e palestrante sobre a temática indígena em escolas, universidades e entidades como SESC e SESI, especialmente no que diz respeitos a prática do ensino da história e cultura indígena em sala de aula nas escolas públicas e privadas – lei Federal 11.645/2008.

Aluno do curso de Administração do Centro Universitário Unicarioca – RJ.

FONTE: MUNDURUKANDO.

CONHEÇA O PROJETO “LEVE UM ESCRITOR INDÍGENA À SUA ESCOLA”. MAIS INFORMAÇÕES EM: CRISTINO WAPICHANA.

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2 comentários sobre “ENTREVISTA: Cristino Wapichana.

  1. Pingback: Entrevista para o blog Pindorama. | Cristino Wapichana

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