PINDORAMA – Entrevista com Tato Deluca.

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Capa do álbum Pindorama.

O cenário artístico nacional começa a ficar interessante, pois há uma tendência forte atualmente de valorização da cultura brasileira. A música, com suas propriedades quase mágicas, é uma forma de expressão que dispensa qualquer tipo de explicação sendo, assim, uma arte de fácil acesso para todos. E é na música que essa tendência, de resgate e de valorização do que é nosso, tem conquistado rapidamente a atenção do público, divulgando uma mensagem importante para a nossa sociedade.

Seguindo essa tendência, a banda AcllA lança agora em 2015 o seu novo álbum, Pindorama, que promete ser um trabalho inovador dentro do Metal Nacional.

Conversamos com o vocalista, Tato Deluca, e ele explica melhor como foi o processo criativo. Além do trabalho intenso de pesquisa, o novo álbum conta com a inspiração artística que levou os músicos a utilizar as vibrações da nossa terra para compor as faixas de Pindorama.

PINDORAMA – O novo álbum, Pindorama, pretende valorizar a cultura nacional e, pelo que já foi divulgado, a cultura indígena ganhou grande destaque nas composições. Como surgiu a inspiração para a temática desse álbum?

TATO DELUCA – Em nosso primeiro álbum – Landscape Revolution – tentamos explicitar a maneira não-sustentável com que nossa sociedade trata o Meio-ambiente. Para darmos mais clareza a essa mensagem, decidimos que o segundo álbum deveria deixar claro o desrespeito da nossa sociedade pela terra, e a melhor forma de fazer isso era fazendo uma comparação com povos antigos, que tinham uma relação de interdependência com a terra.

Além de mostrar esse contraste, também é uma homenagem aos nossos ancestrais da terra. Sempre me perguntei por que o Heavy Metal feito por bandas nacionais é um estilo que não se popularizou no Brasil. A resposta pareceu clara – os ritmos e melodias originárias do Blues, Rock e Música Clássica não estão em sintonia com o ritmo do nosso povo. Nascemos numa terra de ritmos mais dançantes, mais quebrados. A própria batida de tambor dos índios norte-americanos é mais “reta” do que os rituais dos nossos índios. Nossas músicas folclóricas são em tom maior, diferente dos cantos tristes dos negros norte-americanos que originaram o Blues. Tudo isso mostra que se o Heavy Metal fosse inventado no Brasil, ele seria muito diferente do que é.

Nossa intenção com o Pindorama foi respeitar profundamente o espírito da nossa terra, falar abertamente do massacre que o “homem-branco” fez, o desrespeito com que ele trata uma terra que ele tomou. Essa mistura de mensagem, música e revolta, criou o disco que estamos prestes a lançar.

PINDORAMA – Houve algum tipo de pesquisa para criar as composições de Pindorama? Em caso afirmativo, existiu algum tipo de dificuldade em conseguir as informações?

TATO DELUCA – Sim, há mais de 10 anos, quando estava envolvido com xamanismo e religiões da Terra, resolvi pesquisar a fundo nossos Ancestrais. Tenho uma coleção interessante de CD’s e livros de vários povos, Krahó, Xavantes, Cayowaa.

O grande desafio foi compreender os cânticos e tentar traduzi-los pras escalas musicais ocidentais. A simulação de sons da natureza, os chocalhos de pé, os zumbidouros. Tudo isso forma um universo sonoro completamente “alienígena” para os não-conhecedores.

Algumas músicas do pindorama tiveram suas melodias traduzidas de cânticos indígenas para música ocidental, o que gerou um resultado bastante curioso.

PINDORAMA – Antes de compor o Pindorama, qual era o seu contato com a cultura indígena? O que mudou, na sua concepção sobre o tema, após a conclusão do álbum?

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Tato Deluca.

TATO DELUCA – Como mencionei antes, fui atrás de nossos ancestrais da Terra, pois temos uma relação muito íntima com a natureza, e algo está errado com a nossa sociedade. Tomamos a terra dos índios, e o espírito deles continua aqui.

A cultura indígena está presente em nossa língua, em nomes, nas melodias mais regionais, em tudo que nos cerca. Não é possível ter uma ligação com a Terra Brasileira sem prestar a devida homenagem aos verdadeiros filhos desse chão.

Durante todo o processo de gravação, foi ficando claro que estávamos no caminho certo. As músicas com seus ritmos completamente não-usuais no Heavy Metal fez com que tudo soasse completamente novo.

É inegavelmente um disco de Heavy Metal, mas é um Heavy Metal que ninguém nunca ouviu.

No final, a conclusão é que teríamos que gravar o Pindorama em português também, pois as músicas estavam pedindo isso. Acabamos fazendo o álbum bilíngue.

Sobre a temática, já estava bem claro desde o começo que caminho seguiríamos. No primeiro álbum já havia duas músicas com temática indígena (Jaguar e Sun n Moon) e nos aprofundaríamos no tema no segundo. O que concluímos no final é que talvez nossas músicas inflamem o coração daqueles que tiveram suas terras roubadas, suas famílias mortas e sua cultura dilacerada.

PINDORAMA – Na sua opinião, qual foi a faixa mais difícil de ser trabalhada e por quê?

TATO DELUCA – Certamente a música “Pindorama” foi a mais complexa, pois ela é um épico de 8:15 com muitas partes e ritmos diferentes. Começa com um batuque bem típico da Bahia dando ritmo a uma melodia meio hino com uma modulação estranha no último compasso, depois do segundo refrão (que é em tom maior e com ritmo de baião), o primeiro solo é sobre um ritmo de frevo. Depois fazemos uma pequena homenagem a Carlos Gomes e entramos em uma parte narrativa, com participação dos amigos do Arandu Arakuaa. No fim volta pra uma parte totalmente Heavy metal, com um Ijexá no meio e termina com o batuque inicial.

É uma música bem complicada que ficará bombástica ao vivo.

PINDORAMA – Durante o processo de gravação vocês entraram em contato com a banda Arandu Arakuaa, que vem fazendo um trabalho muito rico com a temática indígena; e acabaram fechando uma participação especial no álbum Pindorama. Fale um pouco sobre os resultados dessa parceria.

TATO DELUCA – Comecei a conversar ano passado com o grande amigo Zândhio Aquino (guitarrista e líder do Arandu) e falei pra ele da temática, propondo que eles gravassem trechos em tupi em 3 músicas – Seeds of Tomorrow/Sementes do amanhã, Land of no Evil/Terra sem Mal e na Pindorama.

As partes que eles gravaram ficaram completamente incríveis, deu a profundidade e a autenticidade que o álbum merecia e foi o inicio de uma grande amizade, esperamos tocar juntos em breve!

PINDORAMA – Ano passado (2014) o grupo Titãs lançou o álbum Nheengatu, com uma temática que pretende fazer referência à nossa cultura e à nossa realidade, e também referências, embora tímidas, à cultura indígena. Nas artes em geral, temos observado essa tentativa de resgate da nossa História e Cultura Ancestral; na sua opinião, o que tem motivado essa tendência?

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Banda AcllA.

TATO DELUCA – A Nova Era. Pode soar meio hippie, mas astrologicamente estamos na Era de aquário, onde as pessoas buscariam uma conexão mais espiritual com a terra.

Somos brasileiros, nossa terra é aqui, independente de onde vem seu sangue, quando você nasce sobre esse solo sagrado sua alma pertence a ele, e pega muito da energia que está em volta.

Acredito que conforme essa conexão espiritual com a terra aumenta, o resgate cultural vai se tornando mais frequente, principalmente pela classe artística, que é composta de pessoas que tem muita sensibilidade. Afinal, nossas ideias vêm de algum lugar, talvez os artistas estejam captando a energia da terra e transformando em arte.

Ou talvez estejamos começando a nos arrepender do que fizemos, e achemos que é hora de devolver a terra aos índios e pedir desculpas. (rs.)

PINDORAMA – O show de lançamento do álbum Pindorama já está marcado para 05 de Abril. O que o público pode esperar do show e do novo CD?

TATO DELUCA – Daremos um grande foco no novo álbum, então esperem ouvir algo que vocês nunca ouviram antes!

PINDORAMA – Caso queira, deixe suas considerações para os leitores do blog.

TATO DELUCA – Gostaria de agradecer ao Blog pela entrevista e aos leitores pela paciência de ler tudo até aqui, sei que falo bastante (rs)!

Aguardem o Pindorama, ouçam, e por favor, nos deixem saber o que acharam, temos recebido críticas muito positivas de amigos que gostam e que não gostam de metal, parece que esse álbum pode quebrar algumas barreiras do estilo, portanto esperamos mesmo saber a opinião das pessoas!

Muito obrigado,

Tato

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VIDEO

Veja um pouco do making of do álbum Pindorama.

PARA MAIS INFORMAÇÕES VISITE A PÁGINA OFICIAL DA BANDA NO FACEBOOK: ACLLA.

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Um comentário sobre “PINDORAMA – Entrevista com Tato Deluca.

  1. Pingback: ENTREVISTA: Tato Deluca. | Francélia Pereira

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