METADE CARA, METADE MÁSCARA, de Eliane Potiguara.

eliane e daniel munduruku

Daniel Munduruku e Eliane Potiguara.

Eliane Potiguara, assim como Olívio Jekupé, é uma das vozes indígenas pioneiras em registrar sua História, sua Cultura e suas angústias em textos. É, assim, uma voz feminina importantíssima dentro da Literatura Indígena no Brasil, além de ser extremamente ativa na luta pelos direitos dos povos indígenas e pelo reconhecimento do valor de suas tradições. A escritora é membro do Instituto UKA – Casa dos Saberes Ancestrais e fundadora da Rede GRUMIN de mulheres indígenas.

Destacamos aqui a sua obra Metade Cara, Metade Máscara; e não encontramos descrição melhor para o livro do que as palavras extraídas de um texto de Daniel Munduruku:

Tenho lido com acurada atenção os dolorosos, sofridos e belos poemas de Eliane Potiguara. Parece mesmo que beleza rima com sofrimento! E não é apenas o sofrimento próprio, pessoal que ela revela, mas a dor que traz dentro de sua memória ancestral: é a dor do mundo indígena em sua heróica tentativa de manter-se vivo num mundo que é pura negação.

Eliane tem sido uma voz um tanto solitária dentro da literatura indígena desde a década de 1980 quando passou a publicar seus poemas para confessar a saga de sua família nordestina migrada e violentada em sua identidade e direitos. Foi a fórmula encontrada para dizer ao Brasil que sua gente é, sim, digna de respeito e consideração, mas que também é preciso indagar ao país os motivos que o levaram a abandonar seus primeiros povos.

Ela pergunta num trecho do poema “Brasil”:

“O que eu faço com minha cara de índia?

E meus cabelos
E minhas rugas
E minha história
E meus segredos?”

É uma pergunta seca, sem rodeios e reveladora de uma dor profunda gerada pela ingratidão sentida pelo país formado pelo “ventre que gerou o povo brasileiro”, mas que o abandonou a um destino cruel.

Embora haja muito de pessoal no seu dizer, Potiguara não fala de si, não reflete sobre sua própria história. Ela vai além para recordar que esta saga não está restrita ao seu povo e à sua família, mas se estende muito além de suas fronteiras e encontra entre as mulheres Yanomami, Tikuna, Makuxi, Cariri…, a mesma dor, o mesmo sofrimento, o mesmo ventre que pariu o Brasil e que hoje vive “órfãs de pais, órfãs de país”.

[…]

Eliane Potiguara foi vitimada por sua condição de mulher, indígena e filha de nordestinos e deixa transparecer seu grito e sua dor nos poemas que criou para dar vazão à sua diasporicidade, ao seu não-ser ou ao seu ser-negado. E em seus versos abre-se para solidarizar com todas as mulheres e homens indígenas que tombaram porque ousaram SER.

Tudo isso pode ser encontrado no lindo e melancólico livro que Potiguara escreveu e que tem o enigmático título “Metade cara, Metade máscara” publicado pela Global Editora (www.globaleditora.com.br). O livro se insere numa série denominada Visões Indígenas cujo objetivo é apresentar à sociedade brasileira o pensar dos povos indígenas. É um texto que merece ser lido, destrinchado, devorado. […]

FONTE: Overmundo.

Segue um poema extraído do blog Eliane Potiguara:

Que faço com a minha cara de índia?

E meu sangue
E minha consciência
E minha luta
E nossos filhos?

Brasil, o que faço com a minha cara de índia?

Não sou violência
Ou estupro
Eu sou história
Eu sou cunhã
Barriga brasileira
Ventre sagrado
Povo brasileiro

Ventre que gerou
O povo brasileiro
Hoje está só…
A barriga da mãe fecunda
E os cânticos que outrora cantavam
Hoje são gritos de guerra
Contra o massacre imundo.

livro-eliane

PARA MAIS INFORMAÇÕES SOBRE A OBRA VISITE O SITE DA GLOBAL EDITORA.

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