O GUARANI, Ópera em quadrinhos: Entrevista com Juliano Oliveira.

CapaComo já foi citado aqui no blog “Embora a temática da cultura ancestral tenha sido sempre explorada por artistas, a diferença que pode ser percebida hoje é de que esses novos trabalhos procuram utilizar uma linguagem mais abrangente, o que pode de fato popularizar essa cultura”. Assim, no século XIX uma ópera foi escrita a partir de um Romance que utilizava a temática indígena como centro da história, a obra era O Guarani, de José de Alencar; e em 2012, a Editora Scipione lançou a ópera O Guarani, de Antônio Carlos Gomes e Antônio Scalvini, em um formato muito interessante; a obra foi apresentada ao público através de um gênero que vem crescendo muito desde a década de 80, o gênero História em Quadrinho (HQ). A obra foi lançada na série Ópera em Quadrinhos.

O gênero HQ, que muitos especialistas descartam da condição de gênero literário classificando-o como 9ª arte, tem mostrado há muito tempo sO-Guarani15_AFeu potencial enquanto Literatura. Desde Will Eisner, quadrinista e acadêmico que foi responsável por um trabalho intenso de valorização do gênero, que a HQ vem apresentando ao público obras de qualidade indiscutível, dentre elas romances gráficos (Graphic Novels) como Whatchmen, do incrível Alan Moore, obra reconhecida no mundo inteiro, sendo vencedora de um prêmio literário importantíssimo, o Prêmio Hugo.

Ao apresentar  O Guarani em quadrinhos, a Editora Scipione amplia o acesso à obra, mas ainda enquadra o gênero no público infantojuvenil; tendência antiga entre as Editoras, o que tem se mostrado uma barreira para autores de renome; que poderiam utilizar o gênero para escrever obras literárias muito ricas para todos os públicos, incluindo o público adulto, pois, como disse Will Eisner

As histórias em quadrinhos comunicam numa “linguagem” que se vale da experiência visual comum ao criador e ao público. Pode-se esperar dos leitores modernos uma compreensão fácil da mistura imagem-palavra e da tradicional decodificação do texto. A história em quadrinhos pode ser chamada “leitura” num sentido mais amplo que o comumente aplicado ao termo” (EISO-Guarani_15_lapisNER, 1999. p,7).

Ainda mais se considerarmos que a linguagem visual se torna a cada dia mais valorizada, não seria exagero dizer que o gênero HQ é o gênero literário que atende as necessidades do leitor contemporâneo, podendo mesmo se tornar o sucessor do já cansado Romance.

No século XIX, as Óperas eram, assim como os Romances, uma forma de expressão cultural que atendia as elites, dessa forma, tanto o Romance de José de Alencar quanto a versão para a Ópera de O Guarani tentavam sim apresentar ao público a cultura indígena como expressão autêntica das terras brasileiras, mas com a preocupação de agradar ao público ao qual essas obras se dirigiam, portanto, muitas adaptações foram feitas e muita informação se perdeu, gerando personagens indígenas muitas vezes distantes da realidade. Mas mesmo assim José de Alencar deve ter seu mérito reconhecido, pois ousou ao tornar a temática indígena o centro de sua obra em uma época em que o preconceito e a O-Guarani_11_lapisdiscriminação contra os povos não europeus eram vistos com naturalidade em nossa sociedade; e mesmo deixando a desejar aos olhos dos que hoje reconhecem o valor da cultura indígena, O Guarani foi grande fonte de inspiração para muitos leitores e motivo de busca por mais informações sobre a verdadeira cultura indígena, e nisso a obra cumpriu seu papel, pois a ficção tem esse poder, de despertar a curiosidade em nós, para que possamos ir de encontro com as fontes do conhecimento.

Hoje novos trabalhos estão sendo feitos, e com muita qualidade já que a informação corre rápido através da Internet, sendo mesmo possível o contato direto com brasileiros de origem indígena que vivem em seu dia a dia a cultura ancestral. Hoje, dúvidas podem ser esclarecidas em um click.

A adaO-Guarani_11_AFptação da Editora Scipione para os quadrinhos tem roteiro de Rosana Rios e conta com ilustrações de Juliano Oliveira. As ilustrações, ricas em detalhes da cultura indígena, resultado das pesquisas do ilustrador, valorizam ainda mais a história, chegando mesmo a aproximá-la mais da realidade dos povos de origem indígena do passado.

Juliano Oliveira tem grande admiração e respeito pela cultura indígena, e sempre que tem oportunidade tenta divulgar essa cultura através de suas ilustrações, e foi com ele que conversamos sobre O Guarani em quadrinhos e sobre a cultura ancestral do Brasil.

Segue a entrevista com Juliano Oliveira.

PINDORAMA – Como surgiu o convite para participar da série Ópera em Quadrinhos?

JULIANO – Após a conclusão do curso de História em Quadrinhos (2009) que realizei na Quanta Academia de Artes, em São Paulo, o artista e professor Sam Hart me chamou para ajudá-lo numa empreitada (que vi como uma extensão do curso), que era arte-finalizar uma adaptação de Hamlet para quadrinhos (editora DCL).

Foi meu primeiro trabalho profissional com HQs (sempre desenhei desde criança, participei colaborando com algumas HQs e em alguns fanzines, mas nunca havia publicado quadrinhos profissionalmente). Nesse período em que trabalhamos juntos, além da parceria no trabalho nos tornamos bons amigos, e em nossas conversas sempre demonstrei meu interesse por temas indígenas e folclore nacional, além de citar artistas brasileiros que defenderam nossa cultura. Percebi então que queria fazer algo dentro desse contexto, pois vejo muitos brasileiros apenas exaltando equivocadamente outras culturas em detrimento e total ignorância da nossa.

Quando surgiu a coleção Ópera em Quadrinhos, da editora Scipione, do Grupo Abril, Sam Hart se propôs a me apresentar como ilustrador para esse projeto, pois o tema era algo que sempre exaltei e, por ter mais afinidade com o assunto, ele me incumbiu a tarefa de desenhá-la. Aceitei de primeira e fiquei muito feliz em participar da adaptação desse clássico da obra literária de José de Alencar e da ópera de Carlos Gomes.

PINDORAMA – Como foi o processo de pesquisa para desenvolver as ilustrações? Você encontrou algum tipo de dificuldade nesse processo?

JULIANO – Sempre que surge algum projeto assim, mergulho de cabeça nele e meus sentidos ficam antenados com tudo à minha volta: tudo pode se tornar referência para o trabalho. Sou bastante detalhista e o trabalho de pesquisa deve ser minucioso para uma clareza total do que estou fazendo. Efetivamente busquei conhecer mais de ambas as obras (o livro e a ópera) e, a partir daí, tive a primeira impressão de cada personagem. Em seguida, parti para a pesquisa de figurino (vestimentas de época, tipos físicos, cabelos etc.). Vi alguns filmes que abordam o período colonial para ter mais certeza do que estava esboçando e, claro, pesquisei em livros e pinturas acerca do tema. Claro que a internet teve papel fundamental nesse processo. A soma de todas essas informações me deu a base necessária para criar os primeiros estudos acerca de minhas percepções sobre cada personagem.

PINDORAMA – O que o leitor pode esperar dessa obra?

JULIANO – Uma breve introdução às obras de José de Alencar e Carlos Gomes, pois ambas possuem características próprias; vale ressaltar suas nuances, por se tratar de uma obra visual e de apelo infantojuvenil. A série Ópera em Quadrinhos, com adaptação de Rosana Rios, demonstra o quanto uma narrativa de quadrinhos pode funcionar como uma breve introdução a uma obra literária específica e ser capaz de despertar o interesse para a literatura em geral. Fico imensamente satisfeito com o resultado, pois isso me remete à infância, período em que lia adaptações de grandes obras literárias, como Vinte mil léguas submarinas, Robinson Crusoé, na biblioteca de minha escola, em Piraju, interior de São Paulo. Recentemente, fiquei sabendo que O Guarani também consta em suas prateleiras agora.

PINDORAMA – Quando pesquisamos sobre a Linguagem e suas manifestações, fica evidente que podemos “contar” histórias de várias maneiras, a mais comum em nossa sociedade é ainda a Escrita; mas as artes visuais têm crescido muito nas últimas décadas, principalmente após a popularização da Internet. Desde meados do século XX tem-se discutido o valor das Histórias em Quadrinhos, que sempre foram vistas como um tipo de “literatura” marginal, e, após a década de 80 do último século, esse gênero tem evoluído muito e vem conquistando um público cada vez mais exigente. No exterior, escritores como Will Eisner, Alan Moore, Neil Gaiman, dentre outros, já são reconhecidos e aclamados pelo público e por especialistas, inclusive na área literária. Como você vê a situação do gênero HQ aqui no Brasil? Na sua opinião, houve algum tipo de evolução em nossa sociedade, em termos de reconhecer o potencial do gênero, ou ainda estamos presos aos preconceitos do início do século XX? Você acredita que é possível criar obras de qualidade literária através dos Quadrinhos?

JULIANO – Quando ainda era moleque, meu pai foi projetista no cinema de minha cidade, Piraju, interior de São Paulo, por 7 anos. Nesse período, transitava pelos bastidores e aprendi a gostar da sétima arte. Hoje, tenho duas grandes paixões, que é cinema e quadrinhos, e vejo isto da seguinte maneira: assim como existem gêneros como pop, cult, clássicos, vejo o mesmo com os quadrinhos. Acredito que é possível realizar obras de diversos gêneros. O quadrinho é uma ferramenta e você a utiliza de acordo com o que deseja transmitir. Existe público para todos os gêneros e todos, inegavelmente, são apreciadores da arte. Will Eisner, Neil Gaiman, Alan Moore são fenômenos que angariaram leitores e elevaram os quadrinhos a um novo patamar. Eles já provaram que é possível inovar, pois, do outro lado, tem uma galera nova chegando e sedenta por bons materiais. Com a internet, tudo ganhou maior visibilidade, podemos quebrar as distâncias e levar nosso trabalho para mais longe. A questão do público brasileiro é ainda uma incógnita, contudo está melhorando. Aos poucos, venho percebendo um desejo crescente em temas relacionados ao Brasil, justamente por não conhecê-los totalmente. “Se fizer, eles virão”, já dizia a voz no filme Campo dos sonhos. Mas ainda o quintal do vizinho parece ser muito mais verde. Creio que isso é resultado de anos de negligência com a nossa educação.

PINDORAMA – Quem visita seu perfil no Facebook encontra, junto de seu nome e sobrenome, a palavra Kaapora, incorporada como se fosse um nome de batismo. Fica evidente a homenagem à cultura ancestral. Como foi seu primeiro contato com a cultura indígena? O que despertou em você esse interesse?

JULIANO – Meu interesse surgiu naturalmente. Sempre me questionei o porquê de tantas referências indígenas, como em nomes de cidades, ruas, palavras que usamos no dia a dia e sequer tomamos conhecimento de suas origens. Nos ensinaram que os “silvícolas” habitavam a terra brasilis no período colonial (como se hoje estivessem extintos de todo território nacional). Mais tarde, percebi que não passava de uma omissão generalizada. Nos transmitiram que todo índio10408101_10152657734883325_8019944296837455954_n não quer saber de nada, o que é outra grande mentira preconceituosa. O índio é de fundamental importância na história do Brasil, na formação do povo brasileiro, do qual somos, em grande parte, seus descendentes.

Assim como muitos, meu interesse começou muito cedo, ainda bem moleque, com o fascínio por povos guerreiros e civilizações antigas. Descontente com nossa realidade atroz, que devora tudo ao seu redor, minha atenção se voltou às antigas civilizações como uma espécie de fuga da realidade, para tentar entender como chegamos à essa “moderna” civilização que parece degradar-se cada vez mais. Despertou meu interesse pelas civilizações grega, nórdica e celta. Houve uma identificação muito forte com essa última e, desde então, muito aconteceu, sempre com o tema em questão. Uma coisa aliou-se a outra, como um Knotwork (um entrelaçamento celta): ilustrei O livro da mitologia celta, de Claudio Crow, e, posteriormente, uma banda brasileira surgiu abordando esse tema, para a qual contribuí com minha arte por 3 álbuns consecutivos. Cada vez mais envolvido com o tema, fiz um curso que abordava o Druidismo. Nesse período, conheci a obra de Joseph Campbell e algo despertou. O poder do mito foi um divisor e responsável por uma mudança de percepção. Meu interesse, outrora para o externo, voltou-se para o interno e passei a perceber mais a realidade à minha volta e, consequentemente, o Brasil. Minha terra ganhou outras cores. E, assim, uma nova realidade se apresentou para que eu pudesse descobrir mais sobre onde estou. As culturas indígenas tornaram-se algo muito mais significativo e minha admiração tornou-se algo crescente.

O nome Kaa pora [1] vem daí, da necessidade de assumir quem eu sou. Vivo na cidade do homem branco, mas meu espírito é do mato. Minha essência está nas matas e em tudo o que ela representa. O verde me fascina, mas não sei dizer exatamente o porquê: apenas sinto. E se sentir é ser, então sou assim.

Minha homenagem a culturas ancestrais está no processo de descobrimento de minhas raízes, de perceber o quanto sou (e somos) parte disso tudo, e o quanto me orgulha, apesar de todo o descaso que assola meu país, ser parte disso, ser filho desta terra.

PINDORAMA – Na Literatura nacional, você acompanha os trabalhos produzidos por autores indígenas? Em caso afirmativo, qual o seu autor e obra preferidos e, na sua opinião, qual a importância dessas obras para a nossa sociedade?

JULIANO – Tudo se deve a um longo processo de valorização cultural e de autodescobrimento. Em princípio, busquei informações sobre quem eram os povos indígenas no Brasil e percebi que, desde os primórdios da contagem do número “oficial” a partir do “descobrimento”, muito aconteceu. Durante séculos, a perseguição e o massacre dos povos indígenas pelos “colonizadores” foram avassaladores, pois eles se apoderaram de uma terra que já era habitada (talvez esteja aí o motivo de tanta omissão e ocultação histórica). No entanto, após muito tempo de massacre e perseguição, houve a resistência tribal. Hoje eles continuam por aqui em menor número, porém resistentes e buscando seu reconhecimento. Descobri que muitos representantes indígenas mudaram suas táticas de combate a essa perseguição, e passei a perceber que muita coisa estava sendo escrita e contada por seus representantes na literatura. Foi então que conheci o belíssimo trabalho de Kaká Werá Jecupé (Tupã Tenondé e A terra dos mil povos, Ed. Peirópolis). Já imaginava o que eu poderia encontrar nessas leituras, entretanto foi algo além das expectativas. A visão indígena da origem da vida é carregada de significados em seus mínimos detalhes. A arte e a magia estão em todas as ações. Para mim, foi uma grande descoberta e, desde então, procuro conhecer mais sobre o trabalho desses artistas da escrita. Outro trabalho que chamou muito a minha atenção foi O banquete dos deuses, Global Ed., de Daniel Munduruku (autor de mais de 30 livros para crianças e jovens), que conta suas origens, mitos e cultura. Vejo tudo isso como uma valiosíssima contribuição para a nossa rica diversidade cultural. Faz parte do meu processo de autodescobrimento e de minhas origens. Estou sempre buscando conhecer mais.

PINDORAMA – Caso queira, fique à vontade para fazer algumas considerações para os leitores do blog.

JULIANO – Uma frase de Joseph Campbell: “A vida tem um significado, mesmo que você não saiba qual.” Todo lugar tem uma história. Conhecer a história do lugar onde você habita é o primeiro passo para ampliar sua percepção. Comece por sua rua, seu bairro, sua cidade. Procure conhecer o lugar onde vive. Seja curioso.

Quando nos envolvemos com algo ou alguém, é sempre o mesmo princípio, porque descobrir o outro é fascinante. Descobrir-se é ainda mais. Explorar novos caminhos é sempre uma aventura. Aventure-se e torne-se o herói de sua própria história. O seu lugar já está definido, e é aqui. O seu momento é agora.

KaaporaMAIS INFORMAÇÕES SOBRE O TRABALHO DE JULIANO OLIVEIRA:

BLOG: http://juliano-outromundo.blogspot.com.br/

SITE: http://julianoilustrador.com.br/

ILUSTRAÇÕES:

Juliano Oliveira.

[1] Ka’a =  mato; pora= habitante (tupi antigo). “CAAPORA (Amaz.), homem do mato, roceiro” (NAVARRO, 2013).

REFERÊNCIA:

EISNER, Will. Quadrinhos e Arte Sequencial. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

NAVARRO, Eduardo de Almeida. Dicionário Tupi Antigo. São Paulo: Global, 2013. p. 395.

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