A TERRA DOS MIL POVOS, de Kaká Werá Jecupé.

image

Kaká Werá

Em matéria da ISTOÉ, de 1999; encontramos uma entrevista fantástica com Kaká Werá, sobre o lançamento de A Terra dos Mil Povos. A entrevista é de Ademir Assunção. Segue um trecho.

Kaká Werá Jecupe é um caso raríssimo de escritor no Brasil. Índio tapuia, ou txucarramãe (guerreiro sem arma), como ele prefere, filho legítimo dos ancestrais habitantes das terras “descobertas” pelos portugueses, resolveu romper o silêncio de cinco séculos e escrever a história vista pela ótica dos que habitavam o Novo Mundo há milhares de anos. O resultado é o belíssimo livro poético-mitológico A terra dos mil povos, publicado pela editora Peirópolis. Nascido em 1964, na aldeia guarani Morro da Saudade, periferia sul de São Paulo, Kaká estudou em escola pública, onde conheceu a história oficial do País, que jamais incluiu as culturas indígenas. Foi o estopim para mergulhar em suas raízes. Passou a peregrinar por aldeias, seguindo a mitológica trilha empreendida pelos guaranis em busca da Terra sem Males. Ouviu dos sábios anciãos a memória viva dos ancestrais. Há quatro anos criou o Instituto Nova Tribo, célula de propagação das culturas indígenas. Com os olhos abertos para os 500 anos de Brasil, trabalha atualmente no projeto Arapoti, um grande encontro tribal para a “pacificação do branco”.

ISTOÉ – O Brasil está se preparando para comemorar seus 500 anos. Para os povos indígenas, são anos de descoberta ou de invasão?

Kaká Werá Jecupe – De desencontro. Desencontro que provocou e continua provocando situações gravíssimas. A realidade atual indígena não é fácil. Ainda hoje, em grandes áreas do País, é na base do tiro. Os interesses que provocam essas ações continuam sendo os mesmos: interesses econômicos. Hoje há um elemento a mais que são as indústrias farmacêuticas multinacionais, que estão praticando a biopirataria, roubando todo um conhecimento ancestral que os povos indígenas detêm a respeito de ervas medicinais.

 ISTOÉ – E qual é a razão desse desencontro?

Kaká – A semente desse desencontro está numa sociedade que tem na sua estrutura de cultura a questão do ter e encontrou uma cultura aqui voltada para o ser.

 ISTOÉ – Os europeus chegaram trazendo o progresso, trataram os que estavam aqui como primitivos. Como você pensa essa relação?

Kaká – Para quem fundamenta a sua cultura no ter, a noção de progresso está em ver ao seu redor o acúmulo de bens materiais. A noção de progresso dos indígenas está em desenvolver a sua capacidade criativa, a sua expressão no mundo. É preciso que a civilização olhe para os índios com menos prepotência, até para perceber que ela está em colapso.

[…]

ISTOÉ – Nesses 500 anos, com o desaparecimento de centenas de etnias, qual foi o maior patrimônio que o Brasil perdeu?

Kaká – O patrimônio da sabedoria. O brasileiro não sabe da sua própria cultura. Tem todo um modelo insistindo no imaginário que vê o índio como um pobre coitado. Esses 500 anos oferecem a possibilidade de rever as suas raízes, ter a percepção desse patrimônio.

 ISTOÉ – De perceber a nossa própria riqueza?

Kaká – Claro. Com essa riqueza de flora, de fauna, de povo, você acha que o Brasil é um país pobre? É mais um blefe que eu não sei por que a sociedade acredita. Eu ando pelas serras, florestas, cerrados. Não tem ninguém mais rico do que a gente. Também já andei fora do Brasil. Falam de Nova York. Nunca vi lugar mais fúnebre! Aquela coisa sempre escura, saindo fumaça debaixo do chão. Se aquilo ali for modelo de civilização, realmente a gente está muito longe. O homem não é filho daquela fumaça fúnebre que fica saindo pelos bueiros. Ele é filho da terra. A essência humana nasceu nas águas, na montanha, na árvore, nos animais. Não está na megalópole.

 […]

ISTOÉ – A escrita foi sempre determinante no contar a história. Você se refere no seu livro a uma espécie de escrita indígena grafada nas cesteiras, nos desenhos. Essa é a grafia indígena?

Kaká – A escrita, considerada pelo ocidental, diz respeito a um tempo linear, presente, passado, futuro, a que a civilização está presa. A escrita que os povos indígenas deixaram é muito mais simbólica. Ela é inacessível a essa frequência que a civilização reconhece como escrita. Essa escrita se manifesta no corpo, através das pinturas, nas cesteiras, nas cerâmicas. Os povos indígenas deixaram essa qualidade de escrita que está afinada com a parte do ser humano que diz respeito ao seu Eu interior.

LEIA A ENTREVISTA COMPLETA AQUI.

Livro-A-terra-dos-Mil-PovosA terra dos mil povos é uma obra fantástica. É um livro ao qual todo brasileiro deveria ter acesso. Nele encontramos, de forma poética e extremamente brilhante, as bases da mitologia desenvolvida em nossas terras; a mitologia ancestral. A teogonia dos povos que nos deram origem está descrita nesse livro. Kaká Werá apresenta nessa obra um texto que dá acesso, aos brasileiros não indígenas, à sabedoria dos nossos antepassados.

Há quem busque nossas raízes na Europa ou na África, mas em outros continentes não podemos encontrar nossas raízes. É de grande valor a influência que outras culturas deixaram no Brasil, e devemos sim conhecê-las e respeitá-las, mas a raiz de um povo não pode estar senão em sua terra, na terra que o gera e o alimenta todos os dias; e é exatamente a sabedoria de nossa verdadeira raiz que encontramos na obra A terra dos mil povos.

Parte do livro se encontra disponível no Google books em A terra dos mil povos.

O livro está disponível para venda em diversas livrarias.

Anúncios

3 comentários sobre “A TERRA DOS MIL POVOS, de Kaká Werá Jecupé.

  1. GOSTAM DE FOTOS DE ÍNDIOS E DE NATUREZA SÃO MILHARES DE FOTOS .CONHEÇA O NOSSO TRABALHO E PARTICIPEM DO NOSSO GRUPO . VAMOS TODOS SOMAR EM FAVOR DESTA CAUSA O MOMENTO É DE EXTREMA UNIÃO , OS ÍNDIOS SÃO OS GUARDIÕES DAS FLORESTAS E SEM ÁRVORES NÃO EXISTE ÁGUA . TODOS NÓS BRASILEIROS DESCENDEMOS DESTE POVO MARAVILHOSO . SOMOS TODOS IRMÃOS , FILHOS DESTA NAÇÃO . SEJAM TODOS BEM VINDOS A ESTA TRIBO HOJE E SEMPRE . NOSSO LINK : ..https://www.facebook.com/groups/177680985767643/?fref=ts

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s