Daniel Munduruku

Daniel_Munduruku,_Göteborg_Book_Fair_2014_2A melhor forma de se conhecer a cultura indígena é através dos próprios povos indígenas; e hoje temos o privilégio de contar com diversas obras publicadas por autores que vivem essa cultura desde o nascimento.

Dentre eles, merece grande reconhecimento o trabalho desenvolvido por Daniel Munduruku.

Segue uma breve biografia retirada de seu blog, MUNDURUKANDO.

Escritor indígena com 45 livros publicados, graduado em Filosofia, tem licenciatura em História e Psicologia. Doutor em Educação pela USP. 

É pós doutor em Literatura pela Universidade Federal de São Carlos – UFSCar. Título obtido sob a orientação da Profa. Dra. Maria Silvia Cintra Martins. Diretor presidente do Instituto UKA – Casa dos Saberes Ancestrais.

Comendador da Ordem do Mérito Cultural da Presidência da República desde 2008. Em 2013 recebeu a mesma honraria na categoria da Grã-Cruz, a mais importante honraria  oficial a um cidadão brasileiro na área da cultura.

Membro Fundador da Academia de Letras de Lorena. 

Recebeu diversos prêmios no Brasil e Exterior entre eles o Prêmio Jabuti, Prêmio da Academia Brasileira de Letras, o Prêmio Érico Vanucci Mendes (outorgado pelo CNPq); Prêmio Tolerância (outorgado pela UNESCO). 

Muitos de seus livros receberam o selo Altamente Recomendável outorgado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ).

Assista à entrevista em que Daniel Munduruku fala sobre a literatura indígena e educação.

Sem título

Clique na imagem e assista à entrevista.

Destacamos aqui um trecho do livro Coisas de Índio – Versão Infantil.

38731_Large3Quando eu era pequeno não gostava de ser índio.

Todo mundo dizia que o índio é um habitante da selva, da mata, e que se parece muito com os animais. Tinha gente que dizia que o índio é preguiçoso, traiçoeiro, canibal. Eu ouvia isso dos meus colegas de escola e sentia muita raiva deles porque eu sabia que isso não era verdade, mas não tinha como fazê-los entender que a vida que o meu povo vivia era apenas diferente da vida da cidade. E isso me fazia sofrer bastante, até porque o fato de ter cara de índio, cabelo de índio, pele de índio, não me permitia negar a minha própria identidade e meus amigos faziam questão de colocar-me de lado nas brincadeiras, como se eu fosse um monstro. Isso durou bastante tempo e foi tão difícil aceitar minha própria condição que eu cheguei a desejar não ter nascido índio…

Foi meu avô quem me ajudou a superar estas dificuldades. Ele me mostrou a beleza de ser o que eu era. Foi ele quem me disse um dia que eu deveria mostrar para as pessoas da cidade esta beleza e a riqueza que os povos indígenas representam para a sociedade brasileira. Naquela época eu achei que meu velho avô estava tentando apenas me animar com palavras de incentivo. No entanto, hoje percebo que ele estava expressando um desejo de ver o nosso povo ser mais compreendido e respeitado. Parecia que ele sabia o que iria acontecer no futuro, pois quando deixei minha aldeia fiquei com o compromisso de levar esta riqueza junto comigo, mesmo sem saber se minha vida na cidade seria positiva ou não.

Este livro é muito precioso para mim, por ser uma tentativa de cumprir a promessa feita a meu avô e de oferecer aos estudantes de todo o Brasil um material atualizado sobre os povos indígenas que habitam esta nossa terra. Quero trazer, através dele, a essência de nosso jeito de viver, dos motivos que nos levam a caçar e pescar acreditando que isso é apenas uma troca que fazemos com os seres da natureza, a importância de nos pintarmos para demonstrar nosso amor aos espíritos e a Deus, a ordem que impera em nossas aldeias, a certeza de que somos apenas um fio na grande teia da vida… Quero dizer aos pequenos leitores que existem outros modos de viver e esses modos não são melhores ou piores, são apenas diferentes.

Outro desejo que tenho é fazer como que os leitores deste livro percebam as diferenças entre si mesmos. Não é preciso ir longe para se notar o quanto o ser humano é diferente, mas às vezes é preciso conhecer as diferentes formas de se viver no mundo para acabarmos compreendendo a importância de se respeitar nosso semelhante. Só respeita o outro quem conhece o outro.

Por muito tempo – e ainda hoje é assim – os povos indígenas foram mal compreendidos pelas pessoas, simplesmente porque eles tinham um jeito próprio de viver: não compravam as coisas nos supermercados, não tinham que ir para locais de trabalho definidos, não precisavam comprar uma porção de coisas, vivendo apenas com o necessário para o dia-a-dia, e não viviam na terra, no chão, como se fossem donos de tudo. Isso deixava as pessoas muito confusas. Elas inventaram, então, jeitos de se apossar das riquezas que estes povos possuíam, escravizando as pessoas  ou destruindo sua cultura, seu modo de estar no mundo, suas crenças, suas casas. A isso damos o nome de etnocídio. O Brasil – em sua história passada – cometeu muitos atos bárbaros contra estes povos, desvalorizando a beleza de sua ancestralidade.

Isto não foi, no entanto, o suficiente para destruir com os povos indígenas, que resistiram bravamente mantendo suas tradições e o resto que delas sobrou. É um pouco desta beleza que pretendemos mostrar neste livro, fazendo uma viagem ao centro da cultura indígena. Aqui vamos aprender que a palavra índio é carregada de bastante preconceito e usá-la de forma mais consciente pode trazer maiores benefícios para a sociedade.

MUNDURUKU, Daniel. Coisas de Índio – Versão Infantil. São Paulo: Callis, 2003. p. 6-8.

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2 comentários sobre “Daniel Munduruku

  1. Pingback: METADE CARA, METADE MÁSCARA, de Eliane Potiguara. | PINDORAMA

  2. Hoje trabalhei na escola o livro: Karu Taru: o pequeno Pajé de Daniel Mundukuru. Maravilhosa obra. Eu adorei e as crianças se envolveram com entusiasmo nos trabalhos. Creio que a melhor forma de trabalhar cultura indígena e estudar os livros escritos por autores indígenas. Gratidão Daniel por tão linda obra.

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