AS BELAS PALAVRAS

Ñe’ë Porá, Belas Palavras; essa é a forma como os índios guarani denominam os textos destinados aos deuses.

Apresentamos aqui um texto retirado do livro A Fala Sagrada, de Pierre Clastres, que nos conta a base da teogonia tupi-guarani.

APARECIMENTO DE ÑAMANDU: OS DIVINOS

Nosso pai, o último, nosso pai, o primeiro,
fez com que seu próprio corpo surgisse
da noite originária.

A divina planta dos pés,
o pequeno traseiro redondo:
no coração da noite originária
ele os desdobra, desdobrando-se.

Divino espelho do saber das coisas,
compreensão divina de toda coisa,
divinas palmas das mãos,
palmas divinas de ramagens floridas:
ele os desdobra, desdobrando a si mesmo, Ñamandu,
no coração da noite originária.

No cimo da cabeça divina
as flores, as plumas que a coroam,
são gotas de orvalho.
Entre as flores, entre as plumas da coroa divina,
o pássaro originário, Maino, o colibri,
esvoaça, adeja.

Nosso pai primeiro,
seu corpo divino, ele os desdobra
em seu próprio desdobramento,
no coração do vento originário.
A futura morada terrena,
ele não a sabe ainda por si mesmo;
a futura estada celeste, a terra futura,
elas que foram desde a origem,
ele não as sabe ainda por si mesmo:
Maino faz então com que sua boca seja fresca,
Maino, alimentador divino de Ñamandu.

Nosso pai primeiro, Ñamandu,
ainda não fez com que se desdobre,
em seu próprio desdobramento,
sua futura morada celeste:
a noite, então, ele não a vê,
e todavia o sol não existe.
Pois é em seu coração luminoso que ele se desdobra,
em seu próprio desdobramento;
do divino saber das coisas,
Ñamandu faz um sol.

Ñamandu, pai verdadeiro primeiro,
habita o coração do vento originário;
e, aí onde ela repousa,
Urukure’a, a coruja, faz com que existam as trevas:
ela faz com que já se pressinta o espaço tenebroso.

Ñamandu, pai verdadeiro primeiro,
ainda na fez com que se desdobre,
em seu próprio desdobramento,
em seu próprio desdobramento,
sua futura morada celeste;
ele ainda não fez com que se desdobre,
em seu próprio desdobramento,
a terra primeira:
ele habita o coração do vento originário.

O vento originário no coração do qual nosso pai
de novo se deixa unir cada vez que volta
o tempo originário,
cada vez que volta o tempo originário.
Terminado o tempo originário, quando a árvore tajy está florida,
então o vento se converte em tempo novo:
ei-los aqui já os ventos novos, o tempo novo,
o tempo novo de coisas não-mortais.

Slide3

REFERÊNCIA 

CLASTRES, Pierre. A fala sagrada: mitos e cantos sagrados dos índios guarani. Campinas: Papirus, 1990. p. 20-24

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